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Paulo José Miranda - O Corpo de Helena

Page history last edited by Helena Barbas 11 years, 1 month ago

 

Paulo José Miranda


O Corpo de Helena


Ainda a sombra de Helena e a guerra de Tróia, uma tragédia antiga tornada moderna

 

Na Ilíada de Homero, Helena (futura de Tróia) é descrita como:«a face que fez afundar mil navios». Para tal naufrágio só poderia mesmo ser uma «face» e nunca uma «cara». Uma brincadeira para dizer que nem todos os corpos têm o mesmo estatuto e que, perante a beleza, mesmo em membros comuns a todos os humanos, a linguagem torna-se reverente para os dizer. O corpo de Helena não existe para andar, comer e dormir. Sedutor porque instrumento de Eros, transforma-se no estranho símbolo de um valor abstracto ultrapassando as dimensões e condicionalismos do material.

O Corpo de Helena - Paulo José Miranda - Cotovia, 1998 

   Manifestação terrena da beleza transcendente, num momento em que o Belo, o Bom e o Justo são a trindade indivisível de um Todo, Helena é a contraparte material do Supremo Bem. Por isso, os poetas cegam quando dizem mal dela, como terá acontecido a Homero e Estesicoro. De acordo com Platão, no Fedro, o último retrata-se e recupera a vista depois de afirmar que não foi Helena quem abandonou Menelau, mas a sua sombra. Gregos e troianos digladiam-se em nome de um fantasma, enquanto o corpo belo, segundo Heródoto, descansa inocente e amenamente no Egipto. 

   Já na Ilíada, a metáfora para descrever a beleza da face de Helena é excessiva e complexa. O poeta não faz uma mera comparação; dá-nos as consequências - catastróficas, e logo sublimes - resultantes dos comportamentos alterados dos seres que olharam aquela «face»: mil navios são muitos mais homens, guerreiros habituados a todas as visões, dispostos à matança e a morrer por Helena. Não interessa que tenham ou não sido obrigados a isso pelos chefes. O importante é que concordaram com eles, fosse para salvar a honra da cidade de Esparta, a da família dos Átridas, ou se tratasse apenas de uma mais comezinha vingança contra a violação da hospitalidade de Menelau. Em última instância, é a beleza de Helena que o retira a ele da situação ridícula de marido enganado porque Alexandre-Páris lhe roubou a mulher, semideia embora. 

   Helena e Castor são os gémeos meio-divinos nascidos do mesmo ovo de Leda, fecundado por Júpiter metamorfoseado em cisne. Têm por irmãos os humanos Pólux e Clitmenestra. Elas acabam a casar com outros dois irmãos, Menelau e Agamémnon os filhos de Atreu, Rei de Esparta. Unem-se à família dos Átridas, aquela que irá emprestar os nomes a tragédias várias suscitadas por crimes monstruosos: a Oresteia de Ésquilo; o Ajax de Sófocles; Orestes, Electra e as duas Ifigénia de Eurípedes. 

   É pois inserida nesta linha de tradição, invocando no título aquele corpo e a sombra de Helena - ausente, pela partida ainda fresca para Tróia - e recuperando as personagens da primeira casa de Micenas, que se desenvolve a peça de Paulo José Miranda, um poeta a estrear-se como dramaturgo. Sabe-se que a tragédia grega foi grega e durou os seus oitenta anos pelo século V a.C.; que não cessam as recuperações do género, em tentativas que falham por desfasadas ou obsoletas. Mas às vezes há momentos de inspiração feliz, e este parece ser um deles. 

   O mito que orienta a intriga é o da antiguidade - aqui as personagens discutem as motivações e preparativos para a guerra. Agamémnon defende os valores das relações sociais, contra o sofrimento amoroso e privado de Menelau, mas os conflitos acabam actualizados porque se enunciam fora do eterno retorno, sob a tragédia da dúvida: «Se o poder dos deuses serve para castigar um homem, então também serve de muito pouco, maior é o poder de Helena, que o devasta, como uma víbora o envenena de dúvidas.  

   Se o poder dos deuses serve para fazer ver a fragilidade, a miséria dos homens, então devo dizer-te que maior é o poder do tempo, pois que os seus dentes nos estralhaçam antes dos deuses.» (pág. 30). Há ainda deuses que se mascaram e desmascaram, a fazer malabarismos com os destinos dos homens; modernos porque também condicionados ao papel que a tradição lhes impôs, porque não saem dos limites consagrados pelas narrativas mitológicas. Depois, sob a aparência da unidade, o autor obedece à estrutura dos cinco actos divididos pela fala do coro - muito clássico, mas a comentar a acção quase sempre em redondilha maior: «Escutais este prenúncio/ de morte e mais do que morte,/ falha de amor, vós escutais/ esta prece de demência/ mais que demência, dúvida?/ Reparai-lhe nos olhos e/ nos gestos, vede como está/ cego e febril de destino!/ Deuses tomaram-lhe a vida// Punem nele o gesto de Páris,/ e triste a sorte dos Micenas.»(pág.14). Tudo sem didascálias, é um desafio à imaginação do leitor, e do encenador.

 

Helena Barbas [Expresso - 1357, 9 Setembro 1998]

 


 O Corpo de Helena - Paulo José Miranda - Cotovia, Lisboa (1998), 52 págs.


 

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