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Paulo Castilho - Fora de Horas

Page history last edited by Helena Barbas 13 years, 6 months ago

 

Paulo Castilho


 Fora de Horas 


 Um romance fílmico com personagens portuguesas passado em Nova Iorque

 

   Fora de horas, passeando por Nova Iorque, implica de­ imediato uma associação fílmica. E os referentes ­cinematográficos multiplicam-se, intencionalmente,­ pelo interior deste segundo romance de Paulo Castilho, ­ao ponto de a América se transformar num grande ­cenário de celulóide, de o herói se reconhecer como um espectador em visita a um enorme estúdio ­cinematográfico: «Aparentemente, a estação de caminho ­de ferro do Union Pacific estava ainda intacta, tal­ como descrita em Playback. Estação que eu tinha ­visitado em filmes sem conta. Mas faltava em tudo­ aquilo qualquer coisa de essencial.(...) Faltava a­ chuva negra do Big Sleep. Faltava a face obscura de­ que os homens contagiam as cidades que povoam. Faltava ­a lucidez gelada da escuridão. Faltava também o ­Humphrey Bogart. Faltava a Lauren Bacall.» (p.124). À ­sétima arte ligam-se as outras seis, com preponderância para a pintura e arquitectura, na ­construção de um espaço entre exótico e turístico.

 

   Coloca-se o velho problema da relação arte-vida, ­formulado de modo curioso relativamente às ­personagens: as masculinas - Luis, o amante de arte, e ­Rogério, crítico de cinema - falham as suas relações ­com os outros, com o quotidiano; por sua vez as ­mulheres, viradas para o real, tentam erigir a sua­ vida como uma obra-prima.

 

   A história centra-se em torno dos dois narradores -­ Luís e Maria José – expatriados, mas da alta ­burguesia (e a abarrotar de cartões de crédito). Esporadicamente, ele parte para o novo mundo em busca de ­um equilíbrio interior e exterior que não encontrou no ­velho, revivendo uma «náusea» sartriana em finais de­ oitenta, na versão do valium-whisky. Ela, tornou­ definitiva uma estadia de intercâmbio estudantil. ­Seduzida pela revolução das flores, milita em ­Woodstock, acabando por casar e divorciar-se de um­ americano: adapta-se ao condenado «establishment»­ convertendo-se numa «yupie», embora, paradoxalmente, ­recuse abdicar do idealismo da sua juventude.

 

   Estes «amigos de Alex» - também de Bob Dylan e Joan­Baez - à portuguesa, são confrontados - cada um à sua ­maneira - com a realidade da nova geração,­ personificada na «indiferente» Clara. A oposição ­constrói-se através da relação com o mundo, mas ­principalmente com as manifestações artísticas de­ vanguarda, face às quais, os «espíritos tolerantes» de­ sessenta, retomam comportamentos conservadores.

 

   ­Com alguma ironia, esta moderna versão de On the Road interroga-se sobre os tempos que passam numa linguagem­ paralela à dos novos romancistas americanos.

 

   Uma leitura interessante e agradável para as férias, ­caso se consiga ultrapassar os vómitos do primeiro ­capitulo, as ressacas sucessivas, bem como o ­bilinguismo americano-português.

 

Helena Barbas [O Independente, 23 de Junho de 1989, III p.51-2] 

 


 Fora de Horas - Paulo Castilho, Contexto, Lisboa (­1989) 


  

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