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Mário Cláudio - Ursamaior

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Mário Cláudio

Ursa Maior

Mordeduras do tempo
 
   No ano passado (1999) Mário Cláudio celebrou 30 anos de trabalho literário - «trinta anos de tinta que vai secando», dizia o próprio, prevendo a «mordedura do tempo». Mas nem sempre o tempo é inimigo e há mordeduras que cicatrizam em belas escarificações e tatuagens. Foi o que lhe aconteceu com Ursamaior, que representa um salto quântico relativamente a tudo o que até aqui produziu.
 
   Não quer isto dizer que os anteriores sejam menores: os prémios, o reconhecimento público - crítico e académico - provam o contrário. Mas este novo livro obriga a reler e reenquadrar o que ficou para trás.
 
   Os textos anteriores centram-se num passado mais ou menos remoto (os sécs. XVIII-XIX - A Quinta das Virtudes, a Trilogia das Mãos; inícios do séc. XX - Tocata para Dois Clarins; um recuo a Seiscentos em Peregrinação de Barnabé das Índias), sendo pois incursões pela História ou narrativas a partir dela. Em comum têm o recurso a figuras emblemáticas reelaboradas a partir de pesquisa documental, a criação de cenários com «a consciência de que está a fazer decoração», o explorar de memórias e dos mecanismos da memória. Parte deles será reencontrada em Ursamaior, mas agora livres da bengala da História.
 
   Este romance parte de uma notícia sobre um crime passional cometido no Porto, em 1994, por um jovem que entra no Instituto Abel Salazar e assassina a namorada a tiro. Será a personagem de Henrique uma das sete estrelas a compor a constelação.
 
   Mário Cláudio conversou com o rapaz, terá passado meses na cadeia onde este se encontra, terá também ouvido outras histórias de outros reclusos. Mas, desde já, pouco interessa a verdade, que o autor prefira a «literatura jornalística» ao «jornalismo literário», que explique como e quando aproveitou os factos. A relação entre real e ficção é aqui tão irrelevante quanto em O Vermelho e o Negro de Stendhal, também ele suscitado por um «fait divers».
 
   Ursamaior começa por ser um romance sem capítulos evidentes. Pequenos espaços distinguem as diversas histórias, elas próprias fragmentos das sete vidas que contém. Organizam-se por blocos subordinados ao espectro da prisão e ao tempo dominante do presente: são aqueles entrecortados pelo passado mais remoto de cada um - uma juventude, episódios anteriores ao crime - e pelo passado mais próximo do julgamento e condenação. Variam depois com as personagens que, longe dos estereótipos, surgem como representantes de tipos e níveis sociais.
 
   Henrique é o intelectual: «Um homem que cumpre uma missão é um herói que nos merece todo o respeito. E aquele a quem ninguém consegue humilhar é digno da sua condição humana. Eu (...) calculara a estratégia até aos ínfimos pormenores, exprimira no acto praticado a minha verdadeira identidade, natural seria portanto que me deparasse em paz absoluta com a consciência. Observava com sobranceria os que me rodeavam, considerando-os incapazes de cometer o crime purificador a que me abalançara. E originava-se nestes pensamentos uma admiração sem limites por mim próprio, um completo desprezo pelos que se atribuíam o direito de me julgar.» (pág. 156).
 
   Segue-se-lhe Rogério, um vigarista, barbeiro de ofício, que alcança o título de «engenheiro», exímio em danças de salão. Um filho-família, jogador inveterado. Albino, proprietário de um «snack» que se dedica à traficância de arte sacra: «Quem já entrou numa cadeia há-de futurar o nojo que me causava aquele mundo tão feio. Que é que poderia achar ali uma criatura como eu, habituada a trazer os olhinhos nas obras de arte? Só me apetecia fugir do inferno das oficinas onde se dizia que os reclusos se dedicavam às actividades artísticas, mas que não eram mais que fábricas de mamarrachos» (pág. 148). Um polícia injustamente condenado pela violação de uma adúltera boazona e loira. Um homossexual, a ex-transformista Cristiana, que por ingenuidade acompanha um «gang». E Jorge, inspirado pelo Ropinol que, com azar de estreante, assalta um agente da Judiciária.
 
   São as origens que à partida nos dão pistas sobre a caracterização das personagens. Será em torno delas que se desenvolve um dos aspectos mais fascinantes do romance, a construir lentamente as suas figuras por duas vias: comportamentos e linguagens.
 
   Cada uma tem os seus pequenos tiques, idiossincrasias que podemos reconhecer do quotidiano comum. Porém, dado o cenário especial em que se encerram, deixam de ser inocentes: os gestos adquirem um sentido pressago, tornam-se sintoma de uma qualquer forma de a-normalidade, revelam-se prenúncio de uma loucura geral e crescente, tornando a prisão numa espécie de «nave dos loucos». Quanto às linguagens, cada personagem vai construindo um discurso próprio, um vocabulário muito seu que chega ao estatuto de jargão - um eco do melhor vicentino (recorde-se o Auto da Barca do Inferno). E assim, cada um dos heróis cresce a defender-se do tempo e do espaço - pelo trabalho, pela repetição obsessiva de rotinas, pela violência.
 
   Encerrados num universo fechado e masculino, repetem e reformulam as regras de convivência social que conhecem. Regras agravadas pelos regulamentos estritos que regem aquele espaço de excepção. Curiosamente, as hierarquias sociais são as mesmas do mundo exterior. Diz o filho-família: «Vivi os primeiros seis meses numa camarata, mas naquela que se mostra às visitas, o que dava a ideia de que me concediam apesar da enormidade da sentença que o juiz me impusera um estatuto diferente do dos reclusos comuns. Tratei logo de seleccionar os que poderiam formar comigo um círculo decente» (pág. 33). E mais adiante: «E eu insistia em usar o vestuário de boas marcas, acostumado como me achava ao longo de tanto tempo a não prescindir daquilo que constitui sinal de civilização, um cardigan que, sendo um cardigan, confirma quem o escolher no estrato que pelo sangue ou pela cultura lhe pertence, um foulard (...). O sintoma de que surtia efeito aquilo que ao cabo e ao resto não respondia senão à minha natureza íntima residia no acolhimento que me dispensavam os responsáveis pela cadeia, incapazes de ocultar o evidentíssimo enlevo diante das aventuras de um jogador cosmopolita, eles que gozavam de uma liberdade delineada a régua e esquadro.» (pág. 35).
 
   Hierarquias que se elevam ao absurdo ou à caricatura: num microcosmos de excepção, o grupo transforma-se numa elite às avessas; depois, há as características individuais dos presos que levam cada um a considerar-se diferente dos outros: tanto mais superior quanto mais grave o crime ou a pena; quanto maior a cultura ou habilidade artística. Diz o ex-polícia: «O tal Henrique, se acontecia cruzar-se comigo, o que era raro, nem me passava cartão, considerando-se acima da maralha por ser doutor, ou o raio que o parta. E eu via que ele se mostrava igualzinho a um qualquer apesar de ser um assassino confesso que matara a namorada da maneira que eu conhecia. Teimava então em observar-me ao espelho, a tentar descobrir se teria eu aspecto de violador, e até concluía que sim. O meu rosto é meio quadrado, o cabelo forma um bico que vem quase até às sobrancelhas, os olhos são brilhantes e os lábios grossos» (pág. 66). Uma outra forma de interrogar as aparências, que a narrativa obriga a saltar os muros prisionais.
 
   Tendo em conta as várias histórias, e para além do confronto implícito com o mundo real - o lado de fora dos muros que encerram lá dentro pessoas -, há o questionar das leis de uma Justiça que, sendo cega, também se engana - aqui, ironicamente, condenando um polícia por um crime que não cometeu: «Engaiolaram-me logo na carrinha, e levaram-me para as profundezas do Inferno porque era isso mesmo o chilindró onde fui encarcerado, famoso no país inteiro pelas torturas que lá se sofrem, e que não se encontram em mais nenhum sítio. Já ia preparado para o que me aguardava, e por isso não se atreveram os que me recebiam a atestar a dose da praxe. Ao primeiro que desatou a gritar, 'Olha o violas!', mandei eu uns faróis tão carregados de ódio que, se planeava o sacana dizer mais uma ou duas palavras, ficou imediatamente com elas atravessadas na gorja. Marchei de peito inchado pelo meio dos gajos, (...). Ouvi ainda umas bocas ao longe, mas não me importei porque sabia que morreriam na língua dos donos, e o que contava era que me deixassem em paz. Havia de os trazer com a rédea curta, muito correcto, sim senhor, ou não tivesse saído eu da polícia, mas amigos, amigos, negócios à parte.» (pág. 64). Em comum têm todos saudades do passado, da família, das coisas que lhes compunham um quotidiano em liberdade.
 
   Sete personagens e sete histórias que, tendo começado todas mal nalguns casos, por desleixo do destino e crueldade dos homens, acabam pior, em moderna tragédia.
 
   Assim, sem se desligar de estratégias e processos que construíram trinta anos de produção literária, Ursamaior marca uma ruptura no percurso narrativo do autor. Mário Cláudio atinge aqui uma superlativa mestria de linguagem, com uma elegância sábia aborda um tema cruel e actual, corre muitos riscos com uma segurança calma. O resultado é feliz, inaugura uma nova fase na sua escrita, mas também lhe cria responsabilidades acrescidas para o futuro.
 
Helena Barbas [Expresso, 2000]
 

Ursamaior - Mário Cláudio - Dom Quixote, 2000

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