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José Agostinho Baptista - Quatro Luas

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José Agostinho Baptista


Quatro Luas


As Moradas de um homem

 

   José Agostinho Baptista cumpriu 30 anos de vida literária, por entre menores e maiores reconhecimentos. Recebeu em Maio passado o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT pelo livro Esta Voz é quase o Vento (2004). Depois da obra maior, Biografia – a poética completa de 1976/2000 –, lançou Afectos (2002) uma edição fora do mercado mas acessível a partir da sua página pessoal na net, e Anjos Caídos (2003). Oferece-nos agora um novo volume de versos, Quatro Luas, inesperadamente acompanhado de prólogo e epílogo, construídos de fragmentos igualmente poéticos.
 
   No prefácio José Agostinho apresenta-nos definições para duas únicas palavras – uma delas a surgir no título do livro, e ambas recuperadas no seu interior – seis versões para Lua e duas para Ilha. Escolho não ao acaso: «Lua: espelho de outros mares, espelho de fora e de dentro onde sempre me procurei, em tavira, madrid, granada, faial e porto da cruz, buenos aires e alexandria.»; e «Ilha: esta é a minha casa, direi outra vez, para que se saiba, para que conste a morada de um homem, a sua matéria incandescente e alta. E sobre o basalto, a pele, a terra inteira, tu deixarás, lua, as tuas cinzas transparentes.» (pág.10).
 
   Estes dois conceitos de lua e ilha associam-se fornecendo os sinónimos para uma viagem pessoal, interior e geográfica, transformando este livro numa paisagem, um pequeno mapa de um longo percurso físico, espiritual, poético. As luas vão orquestrar-se, por fases, mas num quarteto. E nada garante que parte dos lugares (re)visitados não sejam também ou apenas literários, como a Alexandria de Durrell – distribuída por Justine, Baltasar, Mountolive e Clea – aqui nomes de poemas entre outros de «Quarto Crescente».
 
   Discretamente, vai o poeta distanciar-se dos seus livros anteriores por um maior despojamento vocabular, insinuando a superior, embora falsa, serenidade de quem se sabe sem moradas: «Fecho a porta, o rosto, as cortinas./ Deito-me de lado, de frente, de costas para uma/ insónia de açucenas perdidas./ Ninguém me diz onde moro,/ que porto é este, onde já não se despedem os que se amavam./…/ Caminhei em vão./ Não encontrei o ouro, o albatroz, a alquimia.// Deitei-me e adormeci/ de lado, de frente, de costas sobre as feridas./ Disse adeus e desci as escadas do exílio, sem/ mais amor na minha vida.» («Lisboa», pág.21-24). Lisboa é lugar de desterro, mas também o são todos os outros lugares reais e imaginários que se vão visitando. Assombrados. Em «Lua Nova» por ecos de ideias suas, versos singulares a retomar um leitmotiv muito pessoal: «Cantei simplesmente, com inaudível voz,/ o medo do amor e das tempestades./ Agora sou apenas uma lâmpada que se consome,/ uma palavra terna, uma palavra maldita,/ sou tudo o que escrevo,/ nada mais.// Vivi sempre, algures, além,/ sem entender o mundo, o silêncio das mães,/ a casa da morte, a casa da vida./ Bebi todos os vinhos, as destilações muito puras,/ e vi, às vezes, no fundo de excessivos cálices,/ um anjo que caía.» («Inutilidade», pág. 32).
 
   A morada deste homem é assim a sua palavra, matéria incandescente que transforma em poesia. O domínio magistral da retorta da escrita permitiu-lhe alcançar o ouro da difícil simplicidade. Pode-se pois contradizê-lo, e considerar como uma denegação, as afirmações sobre a (in)utilidade do trajecto, do resultado do acto criativo. Pode também recusar-se – como o pretende no posfácio – o re-enquadramento do percurso a um mero retorno à não nomeada Madeira natal: «Era o tempo dos regressos e um sismo imprevisto tinha o seu epicentro na alma viajante daquele que voltava. Havia raízes que cresciam sobre a primeira raiz…» (pág.113). Porém, dado que o vazio é humanamente insuportável, a rejeição do espaço do real – por ausência, por reflexo – atira-nos para a transparência do símbolo: «Não havia lâmpadas, barcos, silenciosas/ flores de amendoeira./ Não havia nada./ É a tua pátria,/ ouvi dizer uma voz, ao fundo da escada de pedra./ Sobressaltei-me./ Respondi cerrando os punhos,/ voltando as costas,/ eu não sou de aqui./ Sou do mar./ Sou das buganvílias,/ das ilhas do amanhecer do mundo.» («Deserto», pág.107). Reinscreve-se assim, o poeta com os seus versos, num tempo primordial e num espaço mítico, habitante de uma morada além de todas as histórias.
 
Helena Barbas [Expresso, 2006]
 

Quatro Luas - José Agostinho Baptista - Assírio & Alvim, 2006

 

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