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Ana Luisa Amaral - Imagens

Page history last edited by Helena Barbas 13 years, 7 months ago
Ana Luísa Amaral 

 Imagens  


Uma outra forma de interrogar a Esfinge
 
    Dez anos depois da sua estreia com Minha Senhora de Quê (1990), Ana Luísa Amaral lança o seu sexto livro - Imagens - a culminar um percurso de escrita. A maioridade de uma voz, o peso de um nome na nossa tradição literária foram-se afirmando com Coisas de Partir (1993), Epopeias (1994), E Muitos os Caminhos (1995), passando por Às Vezes o Paraíso (1998).
 
   Em Imagens, os poemas breves e densos organizam-se como um todo, que se revela hesitante a partir do jogo com os respectivos títulos: ecoam-se estes numa pseudo-enumeração - «Primeira Imagem» (pág. 11) e «Primeiro Esboço de Imagem» (pág. 23), por exemplo - que subverte a ordem própria ao surgimento das representações, enviando-as pelo caminho inverso: em direcção ao vago, obrigando a forma a passar a um estado ou fase anterior da sua manifestação natural. Depois, aproximam-se do fim com um «Quase Epílogo», a três poemas de distância de um «Epílogo em Imagem», tendo começado com um «Prólogo de Imagem»: «Os leões insistiam-se,/ solenes, o seu rugido agudo sobre a esfinge/ (que deveria ser rugido rouco)./ 'Não quero', ela dissera./ Um só leão não chega e uma esfinge/ é tão pouco// 'Fazer algum juízo/ particular, exacto, destas coisas/ seria amedrontá-las/ até ao espaço oblongo/ da memória.// É esta a lei da história:/ os seus heróis:/ uma idêntica esfinge'» (pág. 9).
 
   Prólogo e epílogo funcionam como peças literárias suplementares, em particular quando se trata de um drama em verso. No caso dos gregos antigos, o «prologos» tomava o lugar de um primeiro acto explanatório em que uma personagem - por uso uma divindade - aparecia no palco vazio para explicitar os acontecimentos - a catástrofe - antes da actuação. No poema acima, a personagem em causa poderá bem ser (até pela reincidência) a Esfinge: entidade mitológica ela própria com corpo de leão e cabeça de homem. Sábia por excelência, não dá respostas, limitando-se a fazer perguntas.
 
   Ligados entre si por uma grande unidade musical a dar o efeito das «labaredas calmas» da epígrafe, por vocábulos recorrentes de que a autora se apropriou, os poemas unem-se ainda por uma partição estrutural idêntica: os primeiros versos pertencem a um narrador anónimo, impessoal, que refere situações e acontecimentos de histórias provavelmente antigas, que sugere episódios associados aos nomes das lendas e mitologia gregas - Teseu ou Ulisses, Ariadne e Penélope - ou da tradição judaico-cristã (Jonas); a eles se contrapõem os últimos três/quatro versos de cada um, correspondendo a uma «resposta», um «comentário», uma «informação» dada por uma entidade feminina: «ela».
 
   Esta duplicidade transforma cada poema num pequeno diálogo, o qual, adicionando-se aos subsequentes, transformará os fragmentos num todo, num texto mais longo, garantindo-lhe ainda a dimensão dramática. À semelhança do sujeito da primeira parte, também a esta personagem feminina dos momentos finais, que chega por vezes a usurpar o espaço do narrador, ou da própria esfinge, raramente se poderá atribuir um nome: «Imagens/ que voltavam devagar,/ se encostavam a ela sem pudor./ E no silêncio, a esfinge impenetrável,/ sabendo-lhe de cor o coração:/ desistente dos barcos,/ depondo pelo chão de outros palácios/ as armas mais preciosas./ 'Não posso', acrescentara,/ sentindo aproximar-se a hora/ exacta» («A Hora Mais Exacta», pág. 47).
 
   A qualidade prismática das representações, o difractar da re-presentificação, o sugerir de semelhanças entre passado e presente pela riqueza de sentidos criada por velhos vocábulos («palácio» e «armas preciosas», e ainda «bastidor» e «monstros e lendas», entre outros) estão à partida sancionados e congregam-se em torno do título do livro - Imagens -, um plural: uma palavra única a re-unir em si a multiplicidade.
 

   Mas antes disso (ou depois), o(s) epílogo(s) - tendo por objectivo divertir o público e enviá-lo bem-disposto para casa - acaba(m) por cumprir aqui uma função diversa: por um lado, esclarecem a situação de dupla fala; por outro, desmascaram a preponderância do presente, arrastando para o aqui e agora do poema todo o passado, permitindo que o «eu» - ou o leitor - se aproprie de todas as experiências atribuídas a nomes outros, que torne suas todas as imagens.

 

Helena Barbas [Expresso, 2001]

 


Imagens - Ana Luísa Amaral, Campo das Letras, Lisboa (2000)

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