| 
  • If you are citizen of an European Union member nation, you may not use this service unless you are at least 16 years old.

  • Buried in cloud files? We can help with Spring cleaning!

    Whether you use Dropbox, Drive, G-Suite, OneDrive, Gmail, Slack, Notion, or all of the above, Dokkio will organize your files for you. Try Dokkio (from the makers of PBworks) for free today.

  • Dokkio (from the makers of PBworks) was #2 on Product Hunt! Check out what people are saying by clicking here.

View
 

Al Berto - Lunário

Page history last edited by Helena Barbas 13 years, 7 months ago
 
Alberto Pidwell Tavares 

 Lunário 


 Uma primeira experiência do futuro Al Berto pelo território da prosa

 
    Este texto é-nos oferecido como a­ sua "primeira incursão" nos domínios da prosa. Não se trata então ­de um romance, nem de uma novela, nem de contos, mas de um ­«micro-romance»? É uma narrativa composta por sete "capítulos",­unidos pela presença do "eu" narrador, Beno. Este dá, sucessivamente, preponderância às outras personagens, ­revelando-as como principais, em cada um dos diversos ­encontros-capítulos: Lúcio e Gazel, o par homossexual, em­ «Crepúsculo», Nemú, o rapaz sem nome em «Lua Nova», o regresso de ­Alba, a mãe do seu filho Silko em «Quarto Crescente», a morte e ­«ressurreição» de Kid, em «Lua Cheia», a companheira de bar Zohía ­em «Quarto minguante» e, por fim, a viagem e regresso de Alaíno em «Úmbria». «Cântico» – um encontro do «eu» consigo próprio? -­ corresponde a uma síntese, a reunião final dos diversos ­fragmentos do sujeito (os «heterónimos»?) que – como a imagem das ­fotografias o repete ao longo do texto – cada personagem­ representa.
 
   No último «capítulo» encontra-se a solidão­ derradeira, que é a mesma do início, de que sofre Beno-narrador.­ A narrativa revela-se então como uma viagem pelo passado, uma­ viagem imaginária idêntica e paralela à que nos é narrada em «Crepúsculo»: «Aqui estou eu... só, dentro e fora de mim, último ­passageiro da minha noite interior. E reprimiu as lágrimas, ­apertando a pequena mala de viagem contra o peito» (pp.14) -­ diga-se de passagem, que esta mala é de couro azul.
 
   Todos os encontros, desencontros e cruzamentos que se dão no «outro lado da noite», no mundo dos bares e da droga, têm por ­base um relacionamento sexual – homo ou hetero, não interessa -­ embora o narrador afirme: «Nunca tivera necessidade de justificar­ ou afirmar a sua sexualidade – como alguns dos seus amigos o­ ­faziam até ao cansaço e à vulgaridade, com espavento.» A este parágrafo, que parece resumir o que poderia ser uma autocrítica, ­segue-se um outro, interessante: «A "moral" era uma treta que não­ lhe dizia respeito. Era alheia, pura e simplesmente alheia. O que­ sempre o fascinara e seduzira era o amor, a amizade e a ­paixão...» (pp.71).
 
   A «treta» contra a qual Lunário se insurge ­está claramente explícita na página 82, e é a outra faceta de si próprio. Admitamos que, no momento em que os «travestis» tomam ­descansadamente a sua bica matutina na Brazileira, pruridos de «moral» deste tipo não fazem sentido. Só o fazem em termos de­ linguagem literária, quando se explora como novidade os «clichés» ­importados da América, lá pelos finais dos anos sessenta, com­ muito «hippismo» e «beatific generation» à mistura. O caso é que, ­assumir posições que num determinado momento se revelaram como ­meritoriamente anti-convencionais se pode transformar, mais ­tarde, num lugar muito comum. Poder-se-ia ainda tentar inscrever ­este livro numa linha de tradição transgressora mais europeia, ­mas falta-lhe a preocupação social e a ironia de um Genet, o misticismo sublime de um Pasolini, ou a candura do discurso de um ­Ernesto Saba. Estar «contra» com vinte anos de atraso já é ­folclore, e continua a funcionar como literatura.
 
   E se a literatura é actualmente associada à ideia de­ «trabalho» sobre a linguagem, o problema deste texto será a falta­ de laboração sobre a sua matéria-prima. Sem pretender «espiolhar ­a gestão das vírgulas», é impossível que não se repare nas mesmas ­ideias, a repetirem-se pelas mesmas palavras (pp. 86 e 114); na­ escassa «música de fundo» dos Velvet Underground (pp. 47 e 91);­ enfim, na pobreza vocabular e no «kitsch» de algumas falas:­ «Peço-te, promete-me, nada de soluções finais. Conheço-te o suficiente para não ­acreditar numa tentação tua para... bom! sobretudo não deixes que ­o Nemú ande por esse mundo com o peso de um morto no coração. O ­Nemu ama-te, amar-te-á sempre, como eu, como o Kid...» (pp.79)
 
Helena Barbas [Europeu, 1988] 
 
 Lunário - Alberto Pidwell Tavares, Contexto, Lisboa (1988)

 

Comments (0)

You don't have permission to comment on this page.